Ética e Meio Ambiente

Marcelo De Nardi Por Marcelo De Nardi – Juiz Federal

Assim como ao homem são inerentes as faces individual e social, também o são as faces da sobrevivência individual e do respeito ao meio ambiente. Assim como na visão social as faces são inter-relacionadas e interdependentes, também o são as faces ambientais.

A existência humana, corporal, exige interação com o meio ambiente. Não somos capazes de completo isolamento: nossa natureza humana exige que troquemos matéria e energia com o que nos circunda. Absorvemos ar, água e alimentos, excretamos diversas substâncias; absorvemos energia em forma de calor e luz, devolvemos calor e movimento; sem contar as emoções que a natureza nos enseja. Essas interações, essenciais para a sobrevivência individual, são descritas por Edgar Morin como de um ser auto eco-organizado, cuja tênue estabilidade da estrutura complexa que o caracteriza depende de sua constante interação com o meio ambiente.

Nesse sentido, pois, respeitar o meio ambiente é respeitar a própria existência.

Perceber isso, todavia, não é tão simples assim. Lançamos no lixo doméstico toda sorte de dejetos. Para nós o problema está resolvido, o lixo é recolhido e nos livramos dele. Esse lixo, todavia, haverá de ser pelo menos depositado em condições razoáveis (um luxo para os padrões brasileiros) e preferencialmente tratado e reciclado (uma utopia para os padrões brasileiros). Se não houvesse o serviço de recolhimento de lixo, o que faríamos? Queimar os resíduos? Acumulá-los no fundo dos quintais como o faziam nossos ancestrais de oitenta anos passados? E aqueles de nós que moram em apartamentos sem quintal?

Serve-nos o ambiente de berço, de acolhida, dá-nos as essências que nos alimentam e recebe o que deve ser de nós expelido. Sem ele não existimos.

É preciso ampliar o olhar para além do horizonte de dois passos, da esquina de nosso quarteirão, de modo a compreender a importância de preservar o meio ambiente. Restringir a visão ao solo em que nossos pés pisam torna restrito o que se percebe como meio ambiente, e somente nos será isso relevante quando a enchente causada pelo mau uso dos cursos d’água destruir nossa casa.

Não se recaia, todavia, na idílica idéia de que se pararmos o desenvolvimento humano, ou regredirmos aos níveis de dois séculos passados, nos tornaremos melhores para o meio ambiente. A diminuição da qualidade de vida do ser humano nessas condições será impressionante, e a fome, a pobreza e a doença ensejarão disputas, guerras e consequentemente um imenso prejuízo para o equilíbrio do meio ambiente.

A solução parece ser tomarmos consciência de nossa integração ao meio ambiente, passarmos a respeitá-lo e protegê-lo, e usarmos a única vantagem evolutiva que nós humanos temos em relação aos demais seres vivos – a inteligência – para controlar nosso próprio consumo de recursos e aumento populacional, de modo a tornar estável e equilibrada a vida como um todo neste planeta Terra.

Este valor ético merece prioridade.

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